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Os Herdeiros

Os Herdeiros

Entrevista Exclusiva - Pedro Chagas Freitas

Dada a indisponibilidade de tempo devido a questões laborais, não nos foi permitido fazer uma entrevista alargada com o escritor Pedro Chagas Freitas. Todavia, o escritor aceitou responder a duas perguntas posteriormente elaboradas pela equipa deste blogue, ao qual desde já agradecemos a sua colaboração.

 

 

Considera que cada vez mais se escreve e fala pior?
Visito muitas escolas e são bastantes as vezes em que fico agradavelmente surpreendido com a qualidade, a esse nível, que encontro. O que é indiscutível é que 80 ou 90% dos escreventes não fazem a mínima ideia do que é o sistema de pontuação – e colocam as vírgulas e os outros sinais quase à sorte.

 

A escrita é – para si – uma forma de estar ou uma forma de vida?
Não sei criar uma fronteira entre ambos - o que acaba, provavelmente, por ser sinónimo de que é uma forma de mim: seja de vida, seja de estar. É aquilo que eu denomino de escreVIVER: passar a vida a escrever; passar-me na vida a escrever. 

 

Pedro Chagas Freitas escreve. Publicou 22 das mais de 150 obras que já criou. Foi, ou ainda é, jornalista, redator publicitário, guionista, operário fabril, barman, nadador salvador, jogador de futebol, e muitas outras coisas igualmente desinteressantes. Orienta desorientadas sessões de escrita criativa por todo o país e arredores. Gosta de gatos, de cães e de pessoas. Não gosta de eufemismos e de bacalhau assado. Tem mais de 100.000 fãs na sua página de Facebook. Biografia retirada de http://www.wook.pt/authors

Percurso pela Cultura Literária - «Pré-Romantismo»

Pré-Romantismo (décadas finais do século XVIII e início do século XIX)

 

Arreitada donzella em fofo leito,
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtis pachacho estreito:

 

De louro pello um circulo imperfeito
Os pappudos beicinhos lhe matiza;
E a branca crica, nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito:

 

A voraz porra as guelras encrespando
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrados:

 

Como é inda boçal, perde os sentidos:
Porem vae com tal ansia trabalhando,
Que os homens é que veem a ser fodidos.

 

Bocage

Cabine da Leitura

Já foi inaugurada, na Praça de Londres, a primeira Cabine de Leitura da cidade de Lisboa. Com mais de 180 livros neste momento, muitos deles infantis, a Cabine de Leitura é um modo criativo de “reciclar” livros e de os fazer circular. Este sistema informal de empréstimo de livros em que o próprio interessado escolhe o livro que quer ler, anota o seu nome num papel, retira o livro, leva-o para casa e devolve-o ao fim de uns dias, deixando sempre um outro em sua substituição, visa igualmente os laços comunitários, exercitar a cidadania, fomentar a leitura, sobretudo junto dos mais novos e promover o gosto pelos livros num espaço inesperado. Aberta entre as 08:00h e as 20:00h, de segunda a sexta-feira, a biblioteca é autossustentável, ou seja, conta com a colaboração dos leitores para que emprestem o livro, leiam e tragam de volta ou façam uma doação para incrementar o acervo. A modalidade de empréstimo é livre, sem compromisso com data de devolução, apresentação de documentos, pagamento de taxas ou qualquer tipo de burocracia. Uma iniciativa à qual vale a pena aderir.

 

Fotos: Cabine da Leitura e Notícia: http://lx4kids.pt/

Percurso pela Cultura Literária - «Classicismo»

E quando os homens são de tal condição, que cada um quer tudo para si, com aquilo com que se pudera contentar a quatro, é força que fiquem descontentes três. O mesmo nos sucede. Nunca tantas mercês se fizeram em Portugal, como neste tempo; e são mais os queixosos, que os contentes. Porquê? Porque cada um quer tudo. Nos outros reinos com uma mercê ganha-se um homem; em Portugal com uma mercê, perdem-se muitos. Se Cleofas fora português, mais se havia de ofender da a metade do pão que Cristo deu ao companheiro, do que se havia de obrigar da outra metade, que lhe deu a ele. Porque como cada um presume que se lhe deve tudo, qualquer cousa que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba. Verdadeiramente, que não há mais dificultosa coroa que a dos reis de Portugal: por isto mais, do que por nenhum outro empenho. (...) Em nenhuns reis do mundo se vê isto mais claramente que nos de Portugal. Conquistar a terra das três partes do mundo a nações estranhas, foi empresa que os reis de Portugal conseguiram muito fácil e muito felizmente; mas repartir três palmos de terra em Portugal aos vassalos com satisfação deles, foi impossível, que nenhum rei pôde acomodar, nem com facilidade, nem com felicidade jamais. Mais fácil era antigamente conquistar dez reinos na Índia, que repartir duas comendas em Portugal. Isto foi, e isto há-de ser sempre: e esta, na minha opinião, é a maior dificuldade que tem o governo do nosso reino.

 

Padre António Vieira

Percurso pela Cultura Literária - «Classicismo»

Classicismo (século XVI):

 

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta sida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cd me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou

 

Luís de Camões

Entrevista Exclusiva - José Luís Peixoto

Os três elementos deste blogue tentaram entrar em contacto com o José Luís Peixoto, com vista a recolher o seu testemunho. Todavia, a resposta que obtivemos do próprio foi a seguinte: «Gostaria de participar mas, neste momento, a quantidade de projetos e compromissos que tenho em mãos não me permite. Obrigado pelo convite.» Agradecemos nós, no entanto, a disponibilidade do José por ter respondido ao nosso convite, ainda que a possibilidade de aceitá-lo estivesse condicionada pela grande quantidade de trabalho. 

 

 

Fonte da Imagem: Google

Tem de se ser verdadeiro na escrita

Tem de se ser verdadeiro na escrita, porque os leitores sentem. A mentira é impossível na boa literatura. E o que procuro, mais do que a beleza ou qualquer outra coisa, é a verdade, livro após livro, tentando desvendar um pouco mais de mim e esperando que essa possa ser uma forma de desvendar alguma coisa dos outros e que eles também se vejam reflectidos nessa procura que faço.

 

José Luís Peixoto, in 'Diário de Notícias (2003)'

Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura deixou-nos. Partiu. E como forma de o homenagearmos deixamos aqui um soneto escrito pelo próprio sobre o amor e a morte publicado em A "Antologia dos Sessenta Anos".

 

Quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer 
fica junto de mim, não queiras ver 
as aves pardas do anoitecer 
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão, 
põe os olhos nos meus se puder ser, 
se inda neles a luz esmorecer, 
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer, 
sempre a doer de tanta perfeição 
que ao deixar de bater-me o coração 
fique por nós o teu inda a bater, 
quando eu morrer segura a minha mão.

 

Descansa em Paz!

O Amor em Camilo Castelo Branco

«O amor é uma luz que não deixa escurecer a vida.»

Talvez este tenha sido o amor em Camilo. Assim pensava Camilo Castelo Branco.

É sempre difícil falar sobre ele - o amor - tendo em conta que este já foi retratado um sem número de vezes nas histórias, tendendo sempre para a generalização do ideal daquilo que é o amor: a tal ideia romântica. Quando Camilo escreveu esta célebre frase, ou quando a eventualmente proferiu antes da sua escrita, estou certo de que não se referia ao amor como expoente máximo na simplicidade de uma relação. Na ocasião do momento. Mas sim a algo que é transversal aos corpos e ao Homem. Que por muito mais que se apague, visto que é uma luz acesa, nunca deixará de iluminar outras almas. E que para que a chama se alastre de novo ao nosso corpo, temos de pegá-la noutra pessoa referindo-se à ideia de amarmos os outros. Mas nunca descurando o amor que temos de ter a nós mesmos. 

 

Texto da nossa autoria

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