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Os Herdeiros

Os Herdeiros

Disposições finais

E assim chega ao fim, após seis meses do início da competição, a nossa participação no concurso "Ler em Português" promovido pela seguintes entidades: Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, a Rede de Bibliotecas Escolares e o Plano Nacional de Leitura, criado com o intuito de promover a utilização da Língua Portuguesa, aumentar as práticas de leitura e aprofundar a troca de experiências entre alunos e professores portugueses e norte-americanos.

 

Tal como afirmamos no início da criação deste blogue «aceitamos ingressar neste projeto porque somos confiantes. Porque somos exploradores. Acreditamos que podemos ir além-fronteiras, tal como outrora os nossos antepassados foram. E conquistaram.» Por nós, Portugal não está culturalmente morto, sem ideias de futuro, nem sem ideias nacionais, provenientes do seu capital humano.

 

Com a nossa participação quisemos mostrar que a cultura ainda sobrevive, que ainda existe uma réstia de esperança entre jovens como nós, e tanto outros, que manifestam gostos mais «eruditos», que por vezes, passam despercebidos nas estatísticas. Queríamos com a nossa participação mostrar que não seguimos, as até então tanto em voga, «politiquices» portuguesas que resumem-se «a políticas de analfabetos, de meninos mimados, escroques de toda a espécie» desprovidos de qualquer conhecimento adquirido, sem recurso ao esforço ou à iniciativa.

 

A nossa «linha editorial» primou: pela atualização constante, sobretudo nesta fase final do concurso, ao publicarmos diariamente dois posts (ao invés dos dois exigidos por semana, somente) com o objetivo de «inundarmos» este blogue de informação pertinente; primou também pela jovialidade, uma vez que este foi um blogue feito por jovens e para jovens também e não só e pela criativiadade e originalidade, ao recorrermos a uma panóplia de recursos bastante ampla tal como pelo interesse, com a criação de posts que não aborrecessem quem os lesse, entre muito outros que desde sempre estavam no cerne das nossas preocupaçóes.

 

Entrevistamos escritores como João Tordo, Tiago R. Santos, Pedro Chagas Freitas e José Luís Peixoto; realizamos reportagens tendo como base a língua portuguesa, percorremos todas as épocas da nossa cultura literária desde a poesia palaciana, ao romantismo até à contemporânea; utilizamos recursos informativos de jornais e crónicas para difundir a cultura portuguesa e divulgar práticas de conhecimento; escrevemos textos e poemas da nossa autoria dedicados ao blogue, ao concurso e ao nosso supra-sumo meio de comunicação: a língua; vimos partir grandes vultos como Eusébio e Vasco Graça Moura cujas homenagens prestamos, vangloriamos Cristiano Ronaldo pela bola de ouro, "diplomata" da nossa cultura e língua além-fronteiras, e celebramos ainda o ano de nascimento de Padre António Vieira. Recorremos a estatísticas nacionais e a centenas de poemas e textos a fim de propagar boas experièncias de leitura. Acompanhamos tudo isto com boa música portuguesa: Amália, Variações, Ornatos. Regamos tudo com muito trabalho. Demos sempre muito de nós. Recebemos muito também, pela experiência e pelo prazer de celebrar quem somos e celebrar a nossa língua, nossa pátria.

 

Este post não é um adeus, de forma alguma. Até breve.

 

 

Os Herdeiros, 

César, Hélder e Vanessa

"Língua Viva": uma reportagem da nossa autoria

 A reportagem que se segue é da nossa exclusiva autoria.

 

O Homem usufrui de duas línguas. Mas só a mais invertebrada lhe corre nas veias da alma, mas só a mais independente vagueia pelo descampado intímo dos sentimentos que sustenta o desejo de ilusão e, logo após, o de realidade. Só uma personifica autenticamente o sémen que lhe escorre pelo corpo e que vitima os rostos – embora outras se possam servir deste. Fala-se, sem falsas deduções, da Língua Portuguesa.

  

Na fronteira do portão da escola cruzam-se alunos depois do tiquetaque dos relógios. Afluem, progressivamente, em massa, como as águas que caiem do céu a um ritmo frenético. Enquanto anseiam pelo regresso a casa, ou enquanto se deslocam para os cafés, balbuciam e trocam ideias, quando de repente são interpelados por jovens como eles: por nós, que queremos trocar com eles palavras de circunstância. Estranham mas depois entranham. Disponibilizam-se para responder às nossas perguntas. E aceitam democraticamente entrar num debate oral sobre a Língua Portuguesa.

 

Não desmentem o discurso introdutório sobre as modificações que a Língua Portuguesa sofreu desde que D. Afonso Henriques a proclamou e autonomamente intitulam-se, como os próprios veículos da Língua Portuguesa, sobretudo quando questionados sobre quem eram e quem são os difusores do nosso meio de comunicação, porque quem a espalha é quem a “escreve e fala, sobretudo através das palavras” afirmam. Espelhado nestas palavras realçam “o orgulho de falar português” e da contribuição que fornecem para a “divulgação do nosso dialeto através da escrita partilhando a cultura, o povo e a nossa essência” não remetendo para os autores clássicos e contemporâneos a exclusividade da difusão, embora admitindo que, “sem dúvida, os grandes escritores portugueses” mereçam os devidos louros. E aí invocam-se nomes como Fernando Pessoa, Luís Vaz de Camões, D. Dinis, entre outros.

 

Todavia, não se dispersam. Focam as atenções e perspetivam a afirmação da Língua no Mundo. Mais uma vez, de forma uniforme, concluem que o número de falantes determina a força de uma língua. E que o Português não está próximo do patamar do Inglês, por exemplo, que “se entende onde quer que estejamos” uma vez que é uma “língua mundial, onde todos o falam, onde todos o compreendem”. No entanto, embora ainda esteja longe do top três das línguas mais faladas, o mesmo não se pode dizer das antigas colónias portugueses, que utilizam o português, ainda que possa ser sob a forma de vários dialetos, contribuindo importantemente para a afirmação da nossa língua no contexto mundial.

 

Entretanto, as opiniões dividem-se quando se fala sobre possíveis perigos a ter em conta com a Língua Portuguesa. E se uns creem que “não há perigos” que a possam ameaçar, “porque se continuarmos a escrever e a falar em português, estes não aparecem”, outros afirmam “que hoje estamos em perigo porque o sinal de patriotismo e nacionalismo desapareceu há muito dos corações dos Portugueses” e justificam apontando o grosseiro “esmagamento” causado por outras nações. Mas quem a põe em causa? “Todos nós, todos aqueles que a difundiram e que agora são os mesmos que querem que ela seja levada” ou então mais acirradamente “os que governam, os que fazem a máquina portuguesa andar para a frente”, apontam.

 

E quando se fala de glória, altivez e períodos áureos de Portugal, da Língua Portuguesa e dos Portugueses, todos recordam em uníssono “o período dos descobrimentos” que contribuiu para o fomento e divulgação da língua que “abriu as portas do mundo a tudo aquilo que é Português” enaltecendo sempre, sem esquecer, o “caráter lutador, descobridor e aventureiro dos portugueses”.

 

A conformidade volta a liderar o diálogo, que embora expresso por palavras, não deixa de expressar sentimentos, porque as línguas expressam sentimentos. “A saudade só existe em português” acrescentava uma rapariga de relance, completada por outra que afirmava que talvez isso se justifique “porque sentimo-la como mais nenhum outro povo a sentiu, porque ainda hoje somos movidos por ela”.

 

"Sentimos a saudade como mais nenhum povo a sentiu."

 

As palavras não são iguais de língua para língua, e nem todas simbolizam o mesmo, sem falar nas típicas expressões de cada país e da expressividade inerente: “Ouvimos um I miss you e sabe a pouco, é vago e vazio porque não tem a mesma expressividade que um Tenho saudades tuas. Outra rapariga insurge-se, ainda no mesmo plano do valor das palavras, quando da sua altura disse “há palavras que se forem preservadas, conservadas e estimadas, poderão expressar cada vez mais um sentimento verdadeiro que é difícil de descrever com palavras”.

 

Todavia, estejamos em que continente for, e se alguém reconhecer a palavra saudade, podemos pensar que a nossa língua não está perdida. Até porque, enquanto existirmos, pensarmos e sentirmos, nada está perdido. 

Pensamento final

Os pelos hirtos derrubados pela revolução do nosso vocabulário num contorcionismo circense sem o bafio dos animais mas com a corpulência em erupção, a jorrar a chama vermelha dos nossos corações. Era a nossa alma. Era a nossa língua.

Texto da nossa autoria.

Percurso pela Cultura Literária - «Poesia Contemporânea»

Poesia Contemporânea

 

Esta gente cujo rosto 
Às vezes luminoso 
E outras vezes tosco 

Ora me lembra escravos 
Ora me lembra reis 

Faz renascer meu gosto 
De luta e de combate 
Contra o abutre e a cobra 
O porco e o milhafre 

Pois a gente que tem 
O rosto desenhado 
Por paciência e fome 
É a gente em quem 
Um país ocupado 
Escreve o seu nome 

E em frente desta gente 
Ignorada e pisada 
Como a pedra do chão 
E mais do que a pedra 
Humilhada e calcada 

Meu canto se renova 
E recomeço a busca 
De um país liberto 
De uma vida limpa 
E de um tempo justo 

Sophia de Mello Breyner Andresen

Encontro com Tiago R. Santos

Aqui nesta fotografia, os três elementos deste blogue com o escritor  Tiago R. Santos

 

 

Tiago R. Santos ganha a vida a escrever guiões para filmes e séries de televisão em Portugal. Participou com a sua escrita em Conta-me como Foi e Call Girl, por exemplo. Agora estreou-se no romance em A Velocidade dos Objetos Metálicos, cujos livros expostos preenchiam a entrada da biblioteca onde o escritor iria dar a palestra.

 

Tiago pareceu-nos uma daquelas pessoas que, apesar de não serem de muitas palavras, dão entrevistas muito relevantes e recheadas de um humor disfarçado e sarcástico. Mesmo antes de começar a responder às questões dos que assitiam à palestra, Tiago R. Santos invocou duas citações, uma de Walt Whitman e outra de Ricky Jay, o narrador de Magnólia (filme de Paul Thomas Anderson que orgulhosamente o autor considerou um dos melhores que já assistira). 

 

Numa conversa bastante informal e inteligente, o autor captou a atenção de todos aqueles que assistiam ao desdobrar das suas recordações. Incluindo nós que registamos o momento para recordação futura. 

 

 

Percurso pela Cultura Literária - «Segundo Modernismo»

Segundo Modernismo (1927-1940)

 

Dorme a vida a meu lado, mas eu velo. 
(Alguém há-de guardar este tesoiro!) 
E, como dorme, afago-lhe o cabelo, 
Que mesmo adormecido é fino e loiro. 

Só eu sinto bater-lhe o coração, 
Vejo que sonha, que sorri, que vive; 
Só eu tenho por ela esta paixão 
Como nunca hei-de ter e nunca tive. 

E logo talvez já nem reconheça 
Quem zelou esta flor do seu cansaço... 
Mas que o dia amanheça 
E cubra de poesia o seu regaço! 

Miguel Torga

Eça é o autor português mais traduzido na China

O autor de "Os Maias" encabeça a lista dos 22 escritores portugueses traduzidos para chinês publicada esta semana pela "Portu-Nês", uma revista online dedicada aos Estudos Lusófonos na China. [...] A maioria dos autores, entre os quais os poetas Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andresen, é do século XX e três deles (Alice Vieira, Luís Miguel Rocha e Maria González) continuam a publicar. Cronologicamente, a lista começa com dois dos mais aclamados clássicos do século XVI: Luís de Camões e Fernão Mendes Pinto. No século XIX, Eça de Queiroz aparece acompanhado por Fialho de Almeida, Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco. Ferreira de Castro, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Domingos Monteiro, Luís Sttau Monteiro, Fernando Namora, Camilo Pessanha, Alves Redol e Miguel Torga são os outros nomes da lista. [...]" Notícia com supressões retirada de http://www.noticiasaominuto.com/

 

Apesar disso, em comparação com a publicação literária de outras línguas estrangeiras, este número ainda é reduzido e não está à altura do desenvolvimento literário em pleno auge de língua portuguesa nos últimos anos. Além disso, dado que uma grande parte desses livros foi publicada há muitos anos (os mais antigos datam da década de 50), é pouco possível que os leitores chineses os tenham à perfeita disposição. O ensino do português na China continental, que até há 15 anos estava confinado a duas universidades (Pequim e Xangai), é hoje ministrado em mais de vinte universidades. Aquele rápido desenvolvimento está associado aos crescentes laços económicos e comerciais entre a China e os países de língua portuguesa, sobretudo Angola e Brasil.

Percurso pela Cultura Literária - «Modernismo»

Modernismo (1915-1927)

 

Se eu fosse cego amava toda a gente. 
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha edade. 
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste. 
Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos. 
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas. 
Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas. 
Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas rindo-se para mim. 
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi. 
Se eu fosse cego amava toda a gente. 

Almada Negreiros

O império do Pastel de Natal

Curiosamente, foi enquanto estávamos numa roda de amigos numa esplanada com vista para o Atlântico, a saborear um delicioso pastel de nata e um café meio cheio que, ao folhear uma news magazine portuguesa, demos "de caras" com este artigo sobre este nosso bolo tipicamente português que é o Pastel de Nata ou simplesmente apelidado, por nós, de Nata. Este artigo confirma a grandeza deste "nosso" bolo além-fronteiras, estendo-se a países que certamente nós nem desconfiávamos, como poderão ler nos excertos que copiamos, aquando da elaboração deste post.

 

Come-se em Hollywood e na Austrália. No Brasil e em Singapura. É, de facto, um embaixador de Portugal lá fora. [...] Conheça o império do pastel de nata à volta do mundo [...]

 

 

[...] À mesma hora, em Malaca, na Malásia, alguém estará a trincar um pastel de nata no Restoran de Lisbon. Ou na Comme a Lisbonne, em Paris, no chique bairro do Marais, que tem ao domingo a sua maior enchente. Daqui a umas horas, a pastelaria Bread Talk, da Catherine St, em Chinatown, Nova Iorque, abrirá as portas para os clientes das suas egg tarts – que é como os nossos pastéis de nata são conhecidos na maior parte do globo. Os pastéis de nata são nossos. E são, provavelmente, a nossa maior internacionalização. [...]

 

 

[...] O maior sucesso internacional do pastel de nata é a sua expansão asiática. Muito mais do que em África. A explicação é simples: com a descolonização, muitos portugueses saíram de África, entre os quais muitos pasteleiros. [...]

 

É de facto, a oriente que os pastéis de nata conquistaram as ruas e os hábitos chineses, de forma até inexplicável. E de Macau, onde a influência portuguesa continua forte, rapidamente se expandiram para Xangai, Hong Kong, Taiwan.

 

Em Xangai, os pastéis de nata da Lilian Cake Shop anunciam-se como «provavelmente os melhores do mundo», são feitos à maneira portuguesa, com a crosta queimada, e são considerados os melhores da cidade – e a concorrência é grande, como pode comprovar qualquer turista que ande pelas ruas mais centrais. A Loja de Comida n.º 1, na famosa Nanjing Lu, vende-os por quarenta centavos.

 

Em Pequim, o pastel de nata é o bolo mais vendido da famosa Honey Bear.

 

Em Hong Kong, diz-se que os melhores são os da famosa pastelaria Tai Cehong, de que o último governador inglês, Chris Patten, era fã. Esta pastelaria existe há mais de sessenta anos e tem mais de 14 sucursais, incluindo em Macau – tudo baseado no sucesso do seu pastel de nata, este feito à chinesa, sem ficar queimado por cima. Em Singapura, a confeitaria Tong Heng faz as melhores natas da cidade. [...]

 

Notícia, com supressões, retirada de http://www.noticiasmagazine.pt/2014/o-mais-internacional-bolo-portugues/

Percurso pela Cultura Literária - «Simbolismo»

Simbolismo (1890-1912)

 

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar, 
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo; 
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar 
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo. 
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito. 
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos. 
Nem depois de acordar te procurei no leito 
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo 
A tua cor sadia, o teu sorriso terno... 
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso 
Que me penetra bem, como este sol de Inverno. 
Passo contigo a tarde e sempre sem receio 
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca. 
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio 
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca. 
Eu não sei se é amor. Será talvez começo... 
Eu não sei que mudança a minha alma pressente... 
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço, 
Que adoecia talvez de te saber doente. 

Camilo Pessanha

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