"Língua Viva": uma reportagem da nossa autoria
A reportagem que se segue é da nossa exclusiva autoria.
O Homem usufrui de duas línguas. Mas só a mais invertebrada lhe corre nas veias da alma, mas só a mais independente vagueia pelo descampado intímo dos sentimentos que sustenta o desejo de ilusão e, logo após, o de realidade. Só uma personifica autenticamente o sémen que lhe escorre pelo corpo e que vitima os rostos – embora outras se possam servir deste. Fala-se, sem falsas deduções, da Língua Portuguesa.
Na fronteira do portão da escola cruzam-se alunos depois do tiquetaque dos relógios. Afluem, progressivamente, em massa, como as águas que caiem do céu a um ritmo frenético. Enquanto anseiam pelo regresso a casa, ou enquanto se deslocam para os cafés, balbuciam e trocam ideias, quando de repente são interpelados por jovens como eles: por nós, que queremos trocar com eles palavras de circunstância. Estranham mas depois entranham. Disponibilizam-se para responder às nossas perguntas. E aceitam democraticamente entrar num debate oral sobre a Língua Portuguesa.
Não desmentem o discurso introdutório sobre as modificações que a Língua Portuguesa sofreu desde que D. Afonso Henriques a proclamou e autonomamente intitulam-se, como os próprios veículos da Língua Portuguesa, sobretudo quando questionados sobre quem eram e quem são os difusores do nosso meio de comunicação, porque quem a espalha é quem a “escreve e fala, sobretudo através das palavras” afirmam. Espelhado nestas palavras realçam “o orgulho de falar português” e da contribuição que fornecem para a “divulgação do nosso dialeto através da escrita partilhando a cultura, o povo e a nossa essência” não remetendo para os autores clássicos e contemporâneos a exclusividade da difusão, embora admitindo que, “sem dúvida, os grandes escritores portugueses” mereçam os devidos louros. E aí invocam-se nomes como Fernando Pessoa, Luís Vaz de Camões, D. Dinis, entre outros.
Todavia, não se dispersam. Focam as atenções e perspetivam a afirmação da Língua no Mundo. Mais uma vez, de forma uniforme, concluem que o número de falantes determina a força de uma língua. E que o Português não está próximo do patamar do Inglês, por exemplo, que “se entende onde quer que estejamos” uma vez que é uma “língua mundial, onde todos o falam, onde todos o compreendem”. No entanto, embora ainda esteja longe do top três das línguas mais faladas, o mesmo não se pode dizer das antigas colónias portugueses, que utilizam o português, ainda que possa ser sob a forma de vários dialetos, contribuindo importantemente para a afirmação da nossa língua no contexto mundial.
Entretanto, as opiniões dividem-se quando se fala sobre possíveis perigos a ter em conta com a Língua Portuguesa. E se uns creem que “não há perigos” que a possam ameaçar, “porque se continuarmos a escrever e a falar em português, estes não aparecem”, outros afirmam “que hoje estamos em perigo porque o sinal de patriotismo e nacionalismo desapareceu há muito dos corações dos Portugueses” e justificam apontando o grosseiro “esmagamento” causado por outras nações. Mas quem a põe em causa? “Todos nós, todos aqueles que a difundiram e que agora são os mesmos que querem que ela seja levada” ou então mais acirradamente “os que governam, os que fazem a máquina portuguesa andar para a frente”, apontam.
E quando se fala de glória, altivez e períodos áureos de Portugal, da Língua Portuguesa e dos Portugueses, todos recordam em uníssono “o período dos descobrimentos” que contribuiu para o fomento e divulgação da língua que “abriu as portas do mundo a tudo aquilo que é Português” enaltecendo sempre, sem esquecer, o “caráter lutador, descobridor e aventureiro dos portugueses”.
A conformidade volta a liderar o diálogo, que embora expresso por palavras, não deixa de expressar sentimentos, porque as línguas expressam sentimentos. “A saudade só existe em português” acrescentava uma rapariga de relance, completada por outra que afirmava que talvez isso se justifique “porque sentimo-la como mais nenhum outro povo a sentiu, porque ainda hoje somos movidos por ela”.
"Sentimos a saudade como mais nenhum povo a sentiu."
As palavras não são iguais de língua para língua, e nem todas simbolizam o mesmo, sem falar nas típicas expressões de cada país e da expressividade inerente: “Ouvimos um I miss you e sabe a pouco, é vago e vazio porque não tem a mesma expressividade que um Tenho saudades tuas”. Outra rapariga insurge-se, ainda no mesmo plano do valor das palavras, quando da sua altura disse “há palavras que se forem preservadas, conservadas e estimadas, poderão expressar cada vez mais um sentimento verdadeiro que é difícil de descrever com palavras”.
Todavia, estejamos em que continente for, e se alguém reconhecer a palavra saudade, podemos pensar que a nossa língua não está perdida. Até porque, enquanto existirmos, pensarmos e sentirmos, nada está perdido.